Esquadro
Bumerangue de alabastro,
Esquadro granítico lançado
À um triz
Do espelho vôo de pescador martim
À flor d’água trajetória elíptica
A fio dos caniços revoada
De mosquitos caótica.
Cordão umbilical de plug
Acoplado ao plácido dos
Peixes olhos
De vidros
Violetas vítreos.
Meu australiano objeto polido
Lançado mãos ângulos
Flamengas elipses
De sibilo no ar,
Corte cirúrgico laser.
Eu meu bumerangue
Que explode
À nata aquosa,
Régua risca,
Reta à pele fria úmida.
Bumerangue
Coração imprevisível
Aliciando pérolas frígidas
Aeradas de vazios
Sem longe volta onde vais?
(P. Cruz)
Sentenças para te definir
A borboleta molhou as asas na luz.
Teu coração é uma caverna sob os degraus da igreja.
A bola de bilhar vermelha caiu pena sobre a ardósia.
Tua mente é casa velha sem janelas e portas.
A dançarina cega deu as mãos a um fantasma.
Teu riso é graça, traindo amor na feiúra.
As cordas de cabelos soaram cravos e rosas.
Teu espelho é ferro e tua lança vidro.
A uva negra na taça rubra evaporou-se eloquência.
Tua boca é poeira e outras mortes.
A bata do padre roçou íntima a lingerie de seda da moça.
Teu pesar é estrela caída no fundo azul da piscina.
(Pedro Augusto)
Dez sentenças para te indefinir: - Me vesti como noiva, num país que é sempre futuro, para ver renas abatidas na neve. Sou caça.
- Toquei teu ombro com a espada de chicote, teu coração paira no ar entre a queda e o termo da ampulheta. Sou indiferença.
- Beijei teus lábios e choveu a tarde toda. Sou a cicuta doce do filosofo.
- Mirei com meu arco flechas que eram pedras caindo no vácuo. Sou sêmen.
- Ditei às estrelas o que transcorria na varanda entre o lobo e a lua. Sou nostalgia.
- Amei tua beleza negra e tuas unhas se molharam na pele da lógica. Sou inconstância.
- Gritei aos morros que se fizessem cama o que diria a ângulos planos e ao vértice curvas. Sou teu coração.
- Quis-me. Sou antítese.
- Quedei-me. Sou consciência.
- Curvei-me. Sou crueldade.(Pedro Augusto)
VersosNesta folha em branco não sei fazer o que estou de lembranças. Não sei desenhar o que não tem significado, sentimento ou forma. Mas, se deixá-la em branco, meu mestre espírito pensa que esqueci as letras e estou a perder memória. Então as combino, aleatoriamente. E o sentido alguém que lê lhes dá como quer: pode ser amor e não o ser, ou flores, sonhos, pessoas; ou a página é o negro das letras e o branco versos que me descrevem com letras embaralhadas ao acaso.(Pedro Augusto)
Lago Paranoá
Pássaro azul que voa no espelho do lago
num dia de enfado.
Pássaro no meu copo de cristal e gelo
num dia de tédio e desvelo.
Azul de ave na blusa dela,
pássaro nos olhos em duplicidade
de partenogênese.
Azul ave contra nuvem
é trovão e raio no lago repentino
de pele eriçada soprada por vento frio,
ondas nervosas quebrando espelho,
dissolvendo o azul em chumbo.
Pássaro azul que voa, não caia, por favor,
não caia.
Não agora que o lago encrespa áspero
e pode estilhaçar asas.
Não és albatroz nem pelicano,
gaivota nem mergulhão ou anjo,
nem invencível azul de pássaro.
Não caia.
Não faca n’água rompendo
o silêncio do vento, não caia
nesse repente de alento
zero.
Pássaro azul cuida que a água
é robusta afiada pedra. Fagulha.
Azul de nave não caia chumbo nesse
contorcionismo esquisito de parafuso
sem preâmbulo de novo planar
alto de outros planos e rotas
de vôo.
Avião pássaro avião azul de pássaro
avião suba, arremeta de vôo seta ao céu
não ao chão
de água em fogo, ferro, explosão.
Pássaro azul não caia nesse desvão
de espíritos em revoada de morte
e escuridão.
Pássaro anjo nessa queda inexpressiva
do céu ao inferno banido
por deus do paraíso
rumo ao fogo do petróleo em combustão,
água que inflama a tarde de eterno pesar avião,
não caia.
(P. Cruz)
Milagre
Milagre é nome de flor,
hortelã,
alcachofra, romã,
graviola, cravo,
maçã.
É nome de pai, filho,
irmã,
menina mãe
moça na roça
de ray-ban,
sandálias havaianas,
calça de lycra,
barriga nua
e ‘walkman’.
Milagre é sol
de toda manhã,
silhueta de nuvens
cobrindo casas.
É seu nome nas pedras,
sua voz nas plantas,
sua ausência no afã das horas,
seu cheiro na pele da lã.
Milagre é divagar no divã
ouvindo a droga do Freud,
na mente a nudez de Iansã,
a ânsia lânguida de me estirar
num bordo de praia
com o corpo de vento e brisa,
a mente insana in corpore
sano.
(P. Cruz)
Barbie Brasília (2)
Por mais que não queira
brincar com o estojo de maquiagem,
vestidos de Barbie,
a mansãozinha no lago,
a egotrip movida a antidepressivos,
bulímica, magérrima,
cruel com o espelho,
chorando escondida no banheiro.
Por mais que queira guardar
na valise negra dólares falsos,sonegados,
andar de bike na Júlio Adnet,
cotar o quantovale o coraçãona bolsa, a almaem velocidade contrao sinal fechado
crachhkcaboooummzuumbaanng!!!!
(Estilhaços.)
Por mais que não queira
voar de encontro
ao poste vermelho
do semáforo.
(P. Cruz)