23 Dezembro, 2011

Asinum Asinus Fricat: Ars poetica

Asinum Asinus Fricat: Ars poetica: Si uis me flere, dolendum est primum ipsi tibi . Eis a famosa sentença horaciana em sua Ars Poetica . Não tenho muito tempo para desenvolver...

15 Setembro, 2011

Crash


O trânsito é uma terra sem lei. Um vale-tudo. Uma MMA sem regras e valendo fraturas expostas e revanche bruta. Alta velocidade e raiva acesa pronta para destruir, destroçar, fechar, capotar, jogar pro acostamento. Som alto, buzina nervosa, manobra arriscada, risco, medo, adrenalina, engarrafamento de almas. De vez em quando um corpo. Uma moto com terra e sangue. Uma CRV cuspindo pressa e morte.
No trânsito as mulheres não são belas, literalmente são nervosas feras. Os homens testosterona e bichos maldosos. Civilidade é palavra podre no outdoor. Sinalização é signo de estado bandido. Respiramos câncer em fumaça e ar condicionado virótico. O trânsito vocifera que você não é humano. O humano em você se acha rodas, velocidade e lata. Há exceção à regra. Mas não há nenhuma regra.
E há o pedestre correndo desesperado para alcançar a outra margem da via e levar a tiracolo sua precária sobrevida.

(P.Cruz)

27 Junho, 2011


Simulando Baudrillard Brasília é a Disneylândia da Terra Brasilis.

Simulando Girard, santos nus na Avenida Paulista é sacrifício inútil, quer dizer, violência sacrificial engendrando afiada roda de samsara de escambo mútuo. Pra bom entendedor camisinha é adereço.

(P. Cruz)

23 Maio, 2011

Lógica


Teu cavaleiro é

Um rouxinol ou graúna faminta de

Arco-íris e coração de abóbora?


Aquela música

Na curva da estrada, dobrando

O rio, subindo

O morro, abrindo

O portão, soando

Na calçada é ela.

Entre. Feche essa porta

De ouro e vento.


(P.Cruz)

09 Fevereiro, 2011


Moeda de troca

Não se conversa a esmo jogando tempo fora. E o tempo é de acirrar ânimos. Então evite duelos e contendas. Caminhe pelas beiras. Dando voltas fora do redemoinho, mantendo distância prudente.

Não é tempo de se falar feio, e o silêncio pode ser entendido como ofensa. Ter opinião pra tudo e ter pra nada senso. Jeito de respirar fundo e suave, deixando a mente calma e o instinto ágil.

Ceifam-se vidas como se podam campos de trigos. Pior é o fogo. É do céu que vem sopro do encanto confundindo pessoas. É do fundo do mar que olhos vermelhos de peixes deixam o escuro e saem à caça.

É hora de caminhar no fio da espada com equilíbrio de asas ausentes. Austeridade. Fortaleza. Maleabilidade. Invisibilidade. Não é estiagem de se mostrar brilho. Não é lua de desfrute. Não é estação de exílio ou acerto de contas. É tempo de deixar a consciência fluir com o fogo. É antigo circulo fazendo volta no meio-dia. Coisa que não se vê de comum. Coisa difícil.

(P. Cruz)

08 Fevereiro, 2011

Real

Palavra escrita em folha é árvore.
Grafite casca de pau.
Na memória raizes fundas e olho fitando o sol.

Até que seque a retina semântica.
Verbo é alma da clorofila em sangue.

Árvore é mente criando palavras do rei.
Rei terra, fome, fogo, cinza.
O real sonho petrificado em limites de reino.
Da lógica, léxico, lei, da luz sólida.

(P. Cruz)

31 Dezembro, 2010


Scapegoat


Belos brincos moça. Risíveis?



Na poesia pessoas não são

Pessoas, mas coisas. Substâncias,

Assim como se narra. Como datas,

Lugares e tempos

Não são acontecimentos,

Mas, fantasia, imaginação e espaço

De sonho.



- Como? Fale mais alto. Não consigo lhe ouvir. Sim. Não.

Morreu? Eu disse que sou incapaz com palavras.

Amá-la? Não me ocorreu.

Ódio? É. Penso que palavra basta.

Adeus? Não precisa flores. Lacônico, eu? Feri os lábios.

Quando tentava o frio e as frases eram granizo e fogo. Não,

Não tenho dinheiro para dar-lhe. A chave deixei debaixo da escada

Perto do degrau quebrado onde você sabe. Não. Não consertei. Nem

Minha vida. Nem aquele horror de folhas de outono na sacada.

Dúvidas? Carrego todas como tatuagens. Não de guerras.

Nem de sonhos.

(P. Cruz)

22 Novembro, 2010



Fé é a medida do homem

Medindo o desconhecido,

Tão severa de números

Quão aguda em ceticismo.


Mas, sem a alegria,

O que é do futuro

Que nada conhece?

Ou da morte

pouso de enigmas?

Ah homem, não creia

Que sem leveza

Se atine tino,

Nesse peso e tributo

De corpo e mente em conflito.


Cuide que da vida

Só se leva pro nada

A memória do riso,

Poesias e amigos.


(P.Cruz)


Vazio


A tristeza se agarrou a mim

Como roupa.

Pele de sol num dia cinza.

Roupa de festa

Em praia com chuva.

Roupa molhada palavras secas.

Roupa rasgada em dia de gala.

Pele áspera em dia de seda.


A tristeza se aninhou em mim

Como cama

De ferro e pedra num dia de nuvens.

Resto de feto

Que não desgruda.

Resto de cheiro saudade parida.

Resto de gosto em beijo frio.

Flores secas em folha de livro.

(P. Cruz)