Palavra Solta
23 Dezembro, 2011
Asinum Asinus Fricat: Ars poetica
15 Setembro, 2011
27 Junho, 2011
23 Maio, 2011
09 Fevereiro, 2011

Moeda de troca
Não se conversa a esmo jogando tempo fora. E o tempo é de acirrar ânimos. Então evite duelos e contendas. Caminhe pelas beiras. Dando voltas fora do redemoinho, mantendo distância prudente.
Não é tempo de se falar feio, e o silêncio pode ser entendido como ofensa. Ter opinião pra tudo e ter pra nada senso. Jeito de respirar fundo e suave, deixando a mente calma e o instinto ágil.
Ceifam-se vidas como se podam campos de trigos. Pior é o fogo. É do céu que vem sopro do encanto confundindo pessoas. É do fundo do mar que olhos vermelhos de peixes deixam o escuro e saem à caça.
É hora de caminhar no fio da espada com equilíbrio de asas ausentes. Austeridade. Fortaleza. Maleabilidade. Invisibilidade. Não é estiagem de se mostrar brilho. Não é lua de desfrute. Não é estação de exílio ou acerto de contas. É tempo de deixar a consciência fluir com o fogo. É antigo circulo fazendo volta no meio-dia. Coisa que não se vê de comum. Coisa difícil.
(P. Cruz)
08 Fevereiro, 2011

Real
Palavra escrita em folha é árvore.
Grafite casca de pau.
Na memória raizes fundas e olho fitando o sol.
Até que seque a retina semântica.
Verbo é alma da clorofila em sangue.
Árvore é mente criando palavras do rei.
Rei terra, fome, fogo, cinza.
O real sonho petrificado em limites de reino.
Da lógica, léxico, lei, da luz sólida.
(P. Cruz)
31 Dezembro, 2010

Scapegoat
Belos brincos moça. Risíveis?
Na poesia pessoas não são
Pessoas, mas coisas. Substâncias,
Assim como se narra. Como datas,
Lugares e tempos
Não são acontecimentos,
Mas, fantasia, imaginação e espaço
De sonho.
- Como? Fale mais alto. Não consigo lhe ouvir. Sim. Não.
Morreu? Eu disse que sou incapaz com palavras.
Amá-la? Não me ocorreu.
Ódio? É. Penso que palavra basta.
Adeus? Não precisa flores. Lacônico, eu? Feri os lábios.
Quando tentava o frio e as frases eram granizo e fogo. Não,
Não tenho dinheiro para dar-lhe. A chave deixei debaixo da escada
Perto do degrau quebrado onde você sabe. Não. Não consertei. Nem
Minha vida. Nem aquele horror de folhas de outono na sacada.
Dúvidas? Carrego todas como tatuagens. Não de guerras.
Nem de sonhos.
(P. Cruz)
22 Novembro, 2010
Fé
Fé é a medida do homem
Medindo o desconhecido,
Tão severa de números
Quão aguda em ceticismo.
Mas, sem a alegria,
O que é do futuro
Que nada conhece?
Ou da morte
pouso de enigmas?
Ah homem, não creia
Que sem leveza
Se atine tino,
Nesse peso e tributo
De corpo e mente em conflito.
Cuide que da vida
Só se leva pro nada
A memória do riso,
Poesias e amigos.
(P.Cruz)
Vazio
A tristeza se agarrou a mim
Como roupa.
Pele de sol num dia cinza.
Roupa de festa
Em praia com chuva.
Roupa molhada palavras secas.
Roupa rasgada em dia de gala.
Pele áspera em dia de seda.
A tristeza se aninhou em mim
Como cama
De ferro e pedra num dia de nuvens.
Resto de feto
Que não desgruda.
Resto de cheiro saudade parida.
Resto de gosto em beijo frio.
Flores secas em folha de livro.
(P. Cruz)

