
Lógica
Teu cavaleiro é
Um rouxinol ou graúna faminta de
Arco-íris e coração de abóbora?
Aquela música
Na curva da estrada, dobrando
O rio, subindo
O morro, abrindo
O portão, soando
Na calçada é ela.
Entre. Feche essa porta
De ouro e vento.
(P.Cruz)

Moeda de troca
Não se conversa a esmo jogando tempo fora. E o tempo é de acirrar ânimos. Então evite duelos e contendas. Caminhe pelas beiras. Dando voltas fora do redemoinho, mantendo distância prudente.
Não é tempo de se falar feio, e o silêncio pode ser entendido como ofensa. Ter opinião pra tudo e ter pra nada senso. Jeito de respirar fundo e suave, deixando a mente calma e o instinto ágil.
Ceifam-se vidas como se podam campos de trigos. Pior é o fogo. É do céu que vem sopro do encanto confundindo pessoas. É do fundo do mar que olhos vermelhos de peixes deixam o escuro e saem à caça.
É hora de caminhar no fio da espada com equilíbrio de asas ausentes. Austeridade. Fortaleza. Maleabilidade. Invisibilidade. Não é estiagem de se mostrar brilho. Não é lua de desfrute. Não é estação de exílio ou acerto de contas. É tempo de deixar a consciência fluir com o fogo. É antigo circulo fazendo volta no meio-dia. Coisa que não se vê de comum. Coisa difícil.
(P. Cruz)

Real
Palavra escrita em folha é árvore.
Grafite casca de pau.
Na memória raizes fundas e olho fitando o sol.
Até que seque a retina semântica.
Verbo é alma da clorofila em sangue.
Árvore é mente criando palavras do rei.
Rei terra, fome, fogo, cinza.
O real sonho petrificado em limites de reino.
Da lógica, léxico, lei, da luz sólida.
(P. Cruz)

Fé
Fé é a medida do homem
Medindo o desconhecido,
Tão severa de números
Quão aguda em ceticismo.
Mas, sem a alegria,
O que é do futuro
Que nada conhece?
Ou da morte
pouso de enigmas?
Ah homem, não creia
Que sem leveza
Se atine tino,
Nesse peso e tributo
De corpo e mente em conflito.
Cuide que da vida
Só se leva pro nada
A memória do riso,
Poesias e amigos.
(P.Cruz)
Vazio
A tristeza se agarrou a mim
Como roupa.
Pele de sol num dia cinza.
Roupa de festa
Em praia com chuva.
Roupa molhada palavras secas.
Roupa rasgada em dia de gala.
Pele áspera em dia de seda.
A tristeza se aninhou em mim
Como cama
De ferro e pedra num dia de nuvens.
Resto de feto
Que não desgruda.
Resto de cheiro saudade parida.
Resto de gosto em beijo frio.
Flores secas em folha de livro.
(P. Cruz)
Política