09 fevereiro, 2011


Moeda de troca

Não se conversa a esmo jogando tempo fora. E o tempo é de acirrar ânimos. Então evite duelos e contendas. Caminhe pelas beiras. Dando voltas fora do redemoinho, mantendo distância prudente.

Não é tempo de se falar feio, e o silêncio pode ser entendido como ofensa. Ter opinião pra tudo e ter pra nada senso. Jeito de respirar fundo e suave, deixando a mente calma e o instinto ágil.

Ceifam-se vidas como se podam campos de trigos. Pior é o fogo. É do céu que vem sopro do encanto confundindo pessoas. É do fundo do mar que olhos vermelhos de peixes deixam o escuro e saem à caça.

É hora de caminhar no fio da espada com equilíbrio de asas ausentes. Austeridade. Fortaleza. Maleabilidade. Invisibilidade. Não é estiagem de se mostrar brilho. Não é lua de desfrute. Não é estação de exílio ou acerto de contas. É tempo de deixar a consciência fluir com o fogo. É antigo circulo fazendo volta no meio-dia. Coisa que não se vê de comum. Coisa difícil.

(P. Cruz)

08 fevereiro, 2011

Real

Palavra escrita em folha é árvore.
Grafite casca de pau.
Na memória raizes fundas e olho fitando o sol.

Até que seque a retina semântica.
Verbo é alma da clorofila em sangue.

Árvore é mente criando palavras do rei.
Rei terra, fome, fogo, cinza.
O real sonho petrificado em limites de reino.
Da lógica, léxico, lei, da luz sólida.

(P. Cruz)

31 dezembro, 2010


Scapegoat



Belos brincos moça. Fio e aço?

Na poesia pessoas não são

Pessoas, mas coisas. Substâncias,
Assim como se narra. Como datas,
Lugares, tempos
Não acontecimentos.
Fantasia, imaginação, espaço
De dentro,
Átrio.

- Como? Fale mais alto. Não consigo ouvir. Sim. Não.
Morreu? Eu disse sou incapaz com palavras.
Amá-la? Não ocorreu.
Ódio? É. Penso que palavra basta.
Adeus? Não precisa flores. Lacônico, eu? Feri os lábios.
Quando tentava o frio e frases eram granizo e fogo.
Não tenho dinheiro já. A chave deixei embaixo da escada
Perto do degrau quebrado onde sabe. Não. Não consertei. Nem
Minha vida. Nem o horror de folhas outono na sacada.
Dúvidas? Carrego todas. Tatuagens? Não de guerra.
Nem sonho.

(P. Cruz)

22 novembro, 2010



Fé é a medida do homem

Medindo o desconhecido,

Tão severa de números

Quão aguda em ceticismo.


Mas, sem a alegria,

O que é do futuro

Que nada conhece?

Ou da morte

pouso de enigmas?

Ah homem, não creia

Que sem leveza

Se atine tino,

Nesse peso e tributo

De corpo e mente em conflito.


Cuide que da vida

Só se leva pro nada

A memória do riso,

Poesias e amigos.


(P.Cruz)


Vazio


A tristeza se agarrou a mim

Como roupa.

Pele de sol num dia cinza.

Roupa de festa

Em praia com chuva.

Roupa molhada palavras secas.

Roupa rasgada em dia de gala.

Pele áspera em dia de seda.


A tristeza se aninhou em mim

Como cama

De ferro e pedra num dia de nuvens.

Resto de feto

Que não desgruda.

Resto de cheiro saudade parida.

Resto de gosto em beijo frio.

Flores secas em folha de livro.

(P. Cruz)

03 outubro, 2010

Política

A esperança vence o medo?
Nesta terra de triste degredo
A esperança vira medo.

O zulu bate ainda o chão do terreiro.
Asas inertes poetas
Confundem o vôo em permeio,
Relêem o fim pelo meio,
Dizem do belo o feio.

Amor, ódio, cobiça?
A cana dura do vício,
A cava puta da rima,
A vara de canha medida
Mede a honra em varejo.

Triste sina
Dizem céticos deuses.
Triste troça
Dizem lógicos gregos.
Triste dança da morte
Dizem no Ganges os sábios.
Triste zen da mente,
Dizem mestres chineses.
Triste peça, a da política,
Sem moral no enredo.


(P. Cruz)

26 agosto, 2010

Nuvem

Assisto a morte dos blogs. Blog é uma coisa como relacionamento, com prazo para acabar. É meio um animal que se replica e depois se devora cuspindo filhotes. Ou como árvores petrificadas, mato, capim, planta no vácuo. Muitos já parecem cidades fantasmas perto de garimpo sem ouro. Outros casas abandonadas vazias com poeira e bolor de bites. Alguns causam a sensação de que são sítios arqueológicos, com ossos à amostra e cacos de cerâmicas vazando impressões e sentimentos velhos sacralizados. Uns dois me dão tristeza visitá-los com seus relógios de parede parados em hora e dia de cansaço. Outros, em estertores, teimam em desfiar sua agonia lentamente. Poucos são eternos e neles se cristaliza um momento de razão e dor. As janelas com figuras sem movimento e música ficam lá paradas esperando num clique ganharem vida. Não me causa espécie observar os sinais vitais em pulso rítmico curioso, de exato simulacro de vitalidade. Nem me repulsa seus corpos em indecorosa pose mortuária em público. Impudicos, desnudos, sem saco para soldado morto em batalha ou traficante abatido em morro. Morrem e ficam lá onde não sei e ninguém parece saber, e dizem que é uma nuvem dessas bestas que ninguém sabe se vira chuva ou céu invisível.

(P.Cruz)