22 novembro, 2010



Fé é a medida do homem

Medindo o desconhecido,

Tão severa de números

Quão aguda em ceticismo.


Mas, sem a alegria,

O que é do futuro

Que nada conhece?

Ou da morte

pouso de enigmas?

Ah homem, não creia

Que sem leveza

Se atine tino,

Nesse peso e tributo

De corpo e mente em conflito.


Cuide que da vida

Só se leva pro nada

A memória do riso,

Poesias e amigos.


(P.Cruz)


Vazio


A tristeza se agarrou a mim

Como roupa.

Pele de sol num dia cinza.

Roupa de festa

Em praia com chuva.

Roupa molhada palavras secas.

Roupa rasgada em dia de gala.

Pele áspera em dia de seda.


A tristeza se aninhou em mim

Como cama

De ferro e pedra num dia de nuvens.

Resto de feto

Que não desgruda.

Resto de cheiro saudade parida.

Resto de gosto em beijo frio.

Flores secas em folha de livro.

(P. Cruz)

03 outubro, 2010

Política

A esperança vence o medo?
Nesta terra de triste degredo
A esperança vira medo.

O zulu bate ainda o chão do terreiro.
Asas inertes poetas
Confundem o vôo em permeio,
Relêem o fim pelo meio,
Dizem do belo o feio.

Amor, ódio, cobiça?
A cana dura do vício,
A cava puta da rima,
A vara de canha medida
Mede a honra em varejo.

Triste sina
Dizem céticos deuses.
Triste troça
Dizem lógicos gregos.
Triste dança da morte
Dizem no Ganges os sábios.
Triste zen da mente,
Dizem mestres chineses.
Triste peça, a da política,
Sem moral no enredo.


(P. Cruz)

26 agosto, 2010

Nuvem

Assisto a morte dos blogs. Blog é uma coisa como relacionamento, com prazo para acabar. É meio um animal que se replica e depois se devora cuspindo filhotes. Ou como árvores petrificadas, mato, capim, planta no vácuo. Muitos já parecem cidades fantasmas perto de garimpo sem ouro. Outros casas abandonadas vazias com poeira e bolor de bites. Alguns causam a sensação de que são sítios arqueológicos, com ossos à amostra e cacos de cerâmicas vazando impressões e sentimentos velhos sacralizados. Uns dois me dão tristeza visitá-los com seus relógios de parede parados em hora e dia de cansaço. Outros, em estertores, teimam em desfiar sua agonia lentamente. Poucos são eternos e neles se cristaliza um momento de razão e dor. As janelas com figuras sem movimento e música ficam lá paradas esperando num clique ganharem vida. Não me causa espécie observar os sinais vitais em pulso rítmico curioso, de exato simulacro de vitalidade. Nem me repulsa seus corpos em indecorosa pose mortuária em público. Impudicos, desnudos, sem saco para soldado morto em batalha ou traficante abatido em morro. Morrem e ficam lá onde não sei e ninguém parece saber, e dizem que é uma nuvem dessas bestas que ninguém sabe se vira chuva ou céu invisível.

(P.Cruz)

27 julho, 2010

Carro, container, carroça.

Um dia sem vaga e estacionei meu carro perto de um container amarelo de lixo, desses que ficam fora dos prédios de apartamentos, já prontos para o caminhão. Depois, de cima do apartamento do meu irmão, vi uma carroça feita de papelão e madeira puxada por um cavalo, parada diante do capô do carro. Dentro do container três meninos sujos pegavam lixo e entregavam para a mãe em pé no fundo da carroça. Outra criança barriguda se aninhava no seu colo, se agarrando forte.
Meu carro tem não sei quantos cavalos de força e tecnologia em termo bruto excludente. Pois bem, tentei numa equação simples justificar minha consciência: tantos cavalos de força para mim, um cavalo magro para cinco famintos, algo deve estar errado nessa equivalência moral. Exercício fútil diante da incapacidade de compreender e agir. Amar para o cristão é partilhar, dividir, amparar, abraçar, acolher. Nesse dia eu estava ausente do meu coração, da humanidade cotidiana possível, da bondade, da decência, da consciência esclarecida que justifica a vida.

(P.Cruz)

13 julho, 2010

Microcontos

1.
Atravessei o jardim com o leão ferido. Deitou, morreu. Meu pai calou o dia. Limpou arma. Olhou no oco do cano.
2.
Deserto rumo a Meca. Noite de volta à Jerusalém. Homens na imobilidade estúpida da guerra.
3.
Fugindo apressado de casa, tropeçando nos mendigos agasalhados de solidão. Roçaram minha dor física.
4.
A cobra no semáforo sibilou aos guardas. O cego ouviu medo no coração do cão guia.

(Pedro Cruz)

05 maio, 2010

Cabala

Nos teus olhos há tempos de pausas e sons soando arco-íris. Nuvens de múltiplas cores, sol translúcido, cama de relva e folhas sonoras perfumadas de sono. Há narguilé âmbar, piteira de ouro e fumaça de números pela sala em forma de imensas borboletas. E palavras escritas na parede em letras vermelhas de fogo e carvão em breu.

(P.Cruz)