07 maio, 2012


Ex nihilo, nihil fit.

Das palavras depois de aprendê-las é ofício desfazê-las, negar tendência à ordem, o cheiro da memória, as regras com que se fazem objeto, verbo, mente, mundo.
Do corpo a pose que informa homem e desinforma o pré-concebido ou pressentido padrão de signos da ordem.
Do coração o duo canto contracanto gosto desgosto morto vivo. A dança do fluir sem música nos sons dos pássaros em silêncio de luz.
Agora sei de vazios, verbo que soa vácuo de sons e significados.
É tarde de quê? Sono de que corpo? Pálpebras de que sonhos? Águas de idas ao céu rio de remoinhos sem números de quê.
Súbito me dou conta de que fui o que sou de pronúncia. Mente moto contínuo profusão de falas que enganam o narrador na primeira pessoa que soa ordem no tempo que se diz indo.
Corpo fluido de humores nervosos e pausas crepusculares. Eu de tudo em tudo vários círculos do uno mudo. Palavra que se versa em dualidades compungidas caóticas de fissão da carótida em incontida emoção de sentimentos que eram o quê? Nem me sabiam tardes noites que me dormem álgebra. Reis de coroas caídas de ferro em cacos de limalha lágrimas. Bem se vê da desordem e caos o verbo que se retrai e expande em vaivém de observação sistemática e dedução em risca de ofício férreo cingido no cenho do cérebro que não é o tudo.
É. És. Este. Estes. Estertores. Estes atores tolos em atos e cacos de ferro e energia. Leste. De Norte sem centro e circulo em abscissas formas. És tu? Cela e ave crucificada?

(P. Cruz)

15 setembro, 2011





Crash

 

 

O trânsito é terra sem lei, vale-tudo. MMA valendo fraturas expostas e revanche bruta. Alta velocidade, raiva acesa pronta para destruir, destroçar, fechar, capotar, jogar para o acostamento. Som alto, buzina nervosa, manobra arriscada, risco, medo, adrenalina, engarrafamento de mentes. De vez em quando um corpo. Moto com terra e sangue. CRV cuspindo pressa e morte.

No trânsito mulheres não são belas; nervosas, esquizofrênicas, feras. Homens testosterona e bichos maldosos. Civilidade palavra podre no outdoor. Sinalização é signo do Estado bandido. Respiramos câncer em fumaça e ar condicionado virótico. O trânsito vocifera: você não é humano. O humano em você se acha rodas, velocidade, lata. Há exceção à regra? Mas não há nenhuma regra.

Há o pedestre correndo parvo, em pânico, para alcançar a margem da via expressa levando a tiracolo precária sobrevida.

 

(P.Cruz)





27 junho, 2011


Simulando Baudrillard Brasília é a Disneylândia da Terra Brasilis.

Simulando Girard, santos nus na Avenida Paulista é sacrifício inútil, quer dizer, violência sacrificial engendrando afiada roda de samsara de escambo mútuo. Pra bom entendedor camisinha é adereço.

(P. Cruz)

23 maio, 2011

Lógica


Teu cavaleiro é

Um rouxinol ou graúna faminta de

Arco-íris e coração de abóbora?


Aquela música

Na curva da estrada, dobrando

O rio, subindo

O morro, abrindo

O portão, soando

Na calçada é ela.

Entre. Feche essa porta

De ouro e vento.


(P.Cruz)

09 fevereiro, 2011


Moeda de troca

Não se conversa a esmo jogando tempo fora. E o tempo é de acirrar ânimos. Então evite duelos e contendas. Caminhe pelas beiras. Dando voltas fora do redemoinho, mantendo distância prudente.

Não é tempo de se falar feio, e o silêncio pode ser entendido como ofensa. Ter opinião pra tudo e ter pra nada senso. Jeito de respirar fundo e suave, deixando a mente calma e o instinto ágil.

Ceifam-se vidas como se podam campos de trigos. Pior é o fogo. É do céu que vem sopro do encanto confundindo pessoas. É do fundo do mar que olhos vermelhos de peixes deixam o escuro e saem à caça.

É hora de caminhar no fio da espada com equilíbrio de asas ausentes. Austeridade. Fortaleza. Maleabilidade. Invisibilidade. Não é estiagem de se mostrar brilho. Não é lua de desfrute. Não é estação de exílio ou acerto de contas. É tempo de deixar a consciência fluir com o fogo. É antigo circulo fazendo volta no meio-dia. Coisa que não se vê de comum. Coisa difícil.

(P. Cruz)

08 fevereiro, 2011

Real

Palavra escrita em folha é árvore.
Grafite casca de pau.
Na memória raizes fundas e olho fitando o sol.

Até que seque a retina semântica.
Verbo é alma da clorofila em sangue.

Árvore é mente criando palavras do rei.
Rei terra, fome, fogo, cinza.
O real sonho petrificado em limites de reino.
Da lógica, léxico, lei, da luz sólida.

(P. Cruz)

31 dezembro, 2010


Scapegoat



Belos brincos moça. Fio e aço?

Na poesia pessoas não são

Pessoas, mas coisas. Substâncias,
Assim como se narra. Como datas,
Lugares, tempos
Não acontecimentos.
Fantasia, imaginação, espaço
De dentro,
Átrio.

- Como? Fale mais alto. Não consigo ouvir. Sim. Não.
Morreu? Eu disse sou incapaz com palavras.
Amá-la? Não ocorreu.
Ódio? É. Penso que palavra basta.
Adeus? Não precisa flores. Lacônico, eu? Feri os lábios.
Quando tentava o frio e frases eram granizo e fogo.
Não tenho dinheiro já. A chave deixei embaixo da escada
Perto do degrau quebrado onde sabe. Não. Não consertei. Nem
Minha vida. Nem o horror de folhas outono na sacada.
Dúvidas? Carrego todas. Tatuagens? Não de guerra.
Nem sonho.

(P. Cruz)